Sincretismo, tolerância e resgate

Passei minha infância e adolescência morando em frente à pracinha da Capela de Nossa Senhora do Rosário, na pequena Esmeraldas, região central de Minas Gerais. Quando criança me assustava com as máscaras da Folia de Reis e ao ouvir os tambores e “lamentos” dos festejos do Congado, sentia um misto de medo, respeito e incompreensão. O que não aconteceu com minha filha caçula, Laura, que quando viu pela primeira vez se vestiu de princesa e acompanhou o cortejo dos Reis e Rainhas Congas. Apesar da doutrina Católica recebida, compreender a ritualística, a energia, a devoção dos festeiros e entender o sentimento que o som dos tambores causavam em meu peito levou algumas décadas.

Em 2016, a convite de minha filha Dandara Andrade, jornalista e cineasta, fiz a documentação fotográfica dos festejos finais de Congado em minha terra natal. Pude vivenciar um pouquinho da produção cinematográfica, ora como assistente, ora como um amador e palpiteiro diretor de fotografia. Participar da produção de um curta metragem com minha filha já seria uma grande realização para um pai… (Lançamento em breve… aguardem.)

Mas a experiência me proporcionou uma imersão nos preparativos e rituais dos festejos de Nossa Senhora do Rosário – conversar, ouvir e principalmente observar e sentir. Uma energia indescritível me tomou e não sentia fome, sede, cansaço ou calor. Ouvi dos festeiros algumas vezes que eu precisava, também, comer e descansar. Eu não via as horas se passarem. Foram quatro dias de descobertas, redescobertas, resgate e aprendizado. Emocionado, ainda em transe, retornei ao Rio de Janeiro com o “bornal” repleto de imagens. A energia era tão forte que demorei uns três dias para voltar à realidade, apesar dos fazeres cotidianos.

Me emocionei com a devoção dos fiéis, rezei Missa, Terço e fui benzido por Mãe de Santo. Fiz uma regressão à infância, redescobri a cultura de minha cidade natal e me banhei nas águas do conhecimento do povo da “família dos sete irmãos” (Congo, Moçambique, Marujo, Catopé, Candombe, Vilão e Caboclo). Eu repetia sempre pra mim o quanto precisava mostrar a quem possa o exemplo de sincretismo e tolerância, em época de grandes conflitos étnicos e religiosos que fazem mudar o mapa demográfico mundial. Em época de extremismos, cegueira e sectarismo, em época de violência explícita contra culturas e minorias, me senti um privilegiado por ter sido tão bem recebido pelas Guardas, por poder presenciar e registrar tão lindas manifestações de religiosidade e amor ao próximo. Compreendi o significado da palavra irmandade…

Quase oito meses se passaram… pesquisei, li e assisti tudo que consegui sobre o Congado. Só então compreendi o quanto algumas imagens registradas por mim são significativas. Fiquei feliz por ver jovens e crianças participando fervorosamente dos rituais, crescendo como cidadãos orgulhosos de suas crenças e cultura. Fotografei sem compreender sua importância. Ainda há muito que aprender. Preparo com carinho uma exposição ao ar livre, lá em Esmeraldas, para o povo da “família dos sete irmãos” que me resgatou.

Obrigado congadeiros e moçambiqueiros!

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